Recentemente, terminei de reler — em 1 dia, diga-se de passagem — No mundo da Luna, da maravilhosa autora paulista Carina Rissi. É um livro relativamente grosso na quantidade de páginas — com um amontoado de palavras escritas [risos] —, mas de uma leveza ímpar.
De cara, Carina Rissi nos leva a conhecer Luna Braga é uma de suas personagens mais intensas, e isso reflete em seu signo: escorpião — Escorpianos, vocês sabem da fama que têm. — Nossa protagonista é uma jornalista recém-formada, um tanto mal-humorada com a onda de coisas ruins que estão acontecendo em sua vida [As mocinhas da Rissi estão sempre vivendo maus bocados] e que ainda tem de lidar com o chefe ranzinza — e nerd — da revista onde trabalha.
É possível sentir uma identificação imediata com a Luna desde as primeiras linhas. Quem nunca teve que lidar com um dia de chuva que faz o seu cabelo parecer uma corda de agave [Quem tem cabelo liso que me perdoe a franqueza, mas vocês nunca vão saber o pesadelo que isso representa], estar em um lugar em que não consegue se desenvolver completamente, ou odiar/idolatrar uma pessoa que não faz a mínima idéia que você existe? É o fim!
Somos imediatamente transportados para dentro da cabeça da protagonista, e nos pegamos amando e odiando alguns personagens, exatamente como faríamos na vida real. É assim que surge um dos primeiros clichês referente ao gênero literário proposto: a Luna odeia o Dante com todas as forças, e apesar de ele namorar uma supermodelo famosa há muito tempo, já dá para sentir que o angu da Luna vai criar caroço logo, logo — e será de azeitona, pra citar a uma cena específica do livro.
Dante Montini, o odiado redator-chefe, protagonista dessa história, foi o primeiro boy Rissi que eu tive o prazer de conhecer — e que prazer, meus amigos. O Dante possui um certo ar de inocência, com suas gravatas ridículas e cabelos assanhados, ao mesmo tempo em que exibe uma autoridade inegável, que vem junto com um charme arrasador [“Me joga na parede e me chama de lagartixa!”] e um gosto pela liberdade e pela aventura que me remete muito ao meu ascendente no mapa astral [Sagitariana até a alma!]
Uma coisa que me deixou muito feliz, no entanto, foi o fato de uma das jornalistas da equipe da Fatos&Furos ter quase o meu nome de verdade — Desculpe decepcioná-los com um pseudônimo, mas esta é a vida —, o que é o mais próximo que eu já cheguei de ter o meu nome em um livro [A todas as Lillys, Sofias e Roses, os meus parabéns. O nome de vocês é lindo pra caramba e merecem mesmo ganhar o mundo literário]. Assim que eu percebi essa linda coincidência — na primeira vez em que li — eu fiquei me sentindo a tal. Finalmente chamaram o meu número nesse bingo!
Em No mundo da Luna, temos a oportunidade de conhecer mais sobre uma cultura que considero perfeita, com todas as suas cores, misticismo e alegria contagiante — os Ciganos [Cantando Gitana, da Shakira, nesse exato instante]. A Luna é filha e neta de ciganas, mas esse detalhe só começa a ser explorado depois que uma coluna de horóscopo é arremessada em seu colo, com uma grande placa em néon dizendo: “Oportunidade de ouro”, em letras garrafais. Depois disso, a pobre moça, que era só uma garota de recados, revoltada com a vida, passa a ter sua própria mesa, com vários mapas astrais, uma deadline— até hoje não sei bem o que é isso — e uma penca de problemas que não sabe nem como começar a resolver.
Até a Cigana Clara — pseudônimo da Luna para a coluna do horóscopo — aprender a lidar com as tramas do futuro e do destino, ela se envolve em muita confusão — especialmente uma que usa um imenso óculos de armação preta e tem cabelos assanhados —, e aprende que a magia da vida é mais complexa do que pode ser explicado por um velho baralho cigano.
Uma das características mais interessantes da escrita da Carina é a forma bem-humorada e leve com que a trama é apresentada ao leitor. Os personagens são profundos, bem construídos, e tão carismáticos que dá vontade de pegá-los pela mão e obriga-los a sair das páginas [Chega dá vontade de chorar!] O romance não sufoca o espaço de outros traços que tornam um livro perfeito: ação, um pouco de suspense, e aquela adrenalina gostosa que faz nosso coração quase sair pela boca.
Este é um daqueles livros indescritíveis que você pode ler e reler, indicar para os amigos —mantenha longe dos pais, por favor. Se eles forem como os meus, vão comer o seu fígado com farinha — grifar partes interessantes, rir até as bochechas doerem, e preparar uma panela de brigadeiro para comer enquanto devora as palavras. Você não vai acreditar no quão rápida e prazerosa vai ser essa experiência!

Prós amorzinho
- Estar na companhia da Luna é sinônimo de risada em 70% das vezes — no restante do tempo, você só pensa em chorar de emoção, alegria, raiva ou nervosismo. [Como diz nosso amado Galvão Bueno nos jogos de Copa do Mundo: “É teste pra cardíaco! Segura, coração!”].
- Temos a oportunidade de ver coisinhas interessantes sobre a cultura cigana, interpretações das cartas do baralho, rituais e costumes [E tudo isso enquanto cantarolamos mentalmente a música do Sydney Magal sobre a Cigana Sandra Rosa Madalena — Nem adianta disfarçar, eu sei que você conhece!].
- Acompanhar o crescimento profissional e o desenvolvimento emocional dos personagens é uma das melhores coisas da vida! Temos isso em No Mundo da Luna!
- Dante Montini é um dos boy Rissi mais gatos das histórias da autora — e olha que é difícil escolher! [Marcus, Lucas… vocês sabem que eu sou fiel a vocês… Não me olhem com esses olhares raivosos!].
- É citações incríveis que vocês querem? Temos! Incluindo frases de Gonçalves Dias, Clarice Lispector, provérbios ciganos, e uma leve alusão á Divina Comédia, de Dante Alighieri. [Insira uma suspirocoin* aqui].
- Ah, gente, não dá para negar: o amor da Luna pelo jornalismo e pela escrita é inspirador. Dá vontade de pegar o primeiro bonde para a faculdade e começar a escrever artigos, sem se importar nem um pouco com a quantidade de sangue e mortes que serão vistos durante o curso.
- Em determinados momentos, é quase impossível lembrar que o horóscopo que você está lendo faz parte do livro, e você acaba procurando o próprio signo para saber o que as cartas revelam para você [Oi, Libra!].
- A capa é recheada de coisas importantes para a história, de modo que você conseguiria associá-la ao livro, mesmo que não soubesse que ela se refere ele.
Contras Jilózinho
- A minha edição é impressa, 4º edição, e eu comprei-a em um sebo — eu voltei para casa igual pinto no lixo no dia em que o encontrei na prateleira! —, mas eu pude notar MUITOS erros de impressão. Coisas como acentos comidos, palavras meio apagadas, travessões que não passavam de borrões indistintos ou inexistentes… Eu precisei usar uma caneta preta para corrigir alguns deles, mas é muito chato parar a leitura para fazer esses pequenos consertos.
- Muitos personagens têm o nome semelhante por começarem com a mesma letra — S. Temos uma multidão de Samaras, Sandras, Sabrinas, Soraias… e por aí vai… [Será que a Carina conseguiu um patrocínio com a Sadia? — “[…] porque a vida com S é muito mais gostosa!”].
- A crueldade com que o Dante trata a Luna nos capítulos finais — depois de uma treta pesada — é revoltante. Mesmo depois de fechar o livro e respirar, eu ainda não consegui perdoar ele direito [E olha que eu nem sou muito rancorosa! — Dá vontade de mandá-lo ir se… coçar… ele e aquele rostinho lindo dele. Só para ele deixar de ser babaca!].
- Senti falta de alguns personagens que acho que seria legal ter de volta, apesar de eles terem se bandeado para a revista concorrente no início do livro.
- Excluindo o fato de Luna e Dante aparecer em um pequeno crossover no livro Amor sob encomenda, o final deles ficou em aberto, lançando algumas dúvidas sobre o que veio depois. Nada muito relevante, entretanto.
Com isso, concluo mais uma resenha literária do blog, sentindo mais uma vez a sensação alegre e inebriante de que posso ser eu mesma enquanto falo com vocês. Eu espero que depois dessa resenha, o desejo de ler — ou reler — esse livro maravilhoso, e descobrir cada uma das delícias que só a diva Carina Rissi é capaz de proporcionar com a sua escrita fantástica só se acenda mais e mais, até que você esteja totalmente envolto nessa história mágica.
*Suspirocoin era para ser um neologismo meu, algo como Moeda-suspiro. Se suspiramos tanto, tem de haver uma forma de transformar isso em dinheiro.
P.S.: O que vocês acham de a próxima resenha vir com trechos e frases dos livros? Particularmente, eu iria achar supimpa!
Alice Carvalho
